segunda-feira, 15 de abril de 2019

Sir David Attenborough e as plantações lenhosas


David Attenborough, naturalista britânico, há décadas vem habituando gerações a assistir no sofá às maravilhas e agruras da vida selvagem. Relatos apaixonantes, acompanhados de imagens deslumbrantes, pontuaram em várias séries emocionantes. Produzidas pela BBC, estas séries chegavam regularmente às nossas salas através da televisão.

Numa recente aparição, Attenborough deu a sua voz à defesa das plantações lenhosas. Defendeu-as como instrumento para preservar as florestais naturais. Segundo nos diz, as plantações são essenciais para diminuir a pressão sobre as florestas naturais, face à crescente procura por madeira, no combate à desflorestação. Segundo menciona, são ainda fundamentais para garantir o restauro de áreas antes ocupadas por florestas.

Nesta sua recente mensagem, manteve o relato emocionante, as imagens continuam deslumbrantes. Hoje, a mensagem não só entra em nossas casas pela televisão, como é emitida por múltiplos instrumentos de difusão de sons e imagens.

Mas, não será dúbia a mensagem? Há que analisar o teor da mesma com base no histórico recente, mesmo tendo presente a celebridade e a credibilidade de que goza Sir David Attenborough..

De acordo com a FAO, no último quarto de século, a área de florestas no mundo, plantações incluídas, registou uma contracção de 129 milhões de hectares, aproximadamente a superfície da África do Sul.

Entre 1990 e 2015, a maior perda de área florestal total foi registada na região tropical da América do Sul e de África. A taxa de variação registada foi negativa de 0,17% ao ano. No que respeita à taxa de variação para as florestas naturais, registada no mesmo período, está foi negativa de 0,24% ao ano. Já no que respeita às plantações lenhosas a taxa de variação foi positiva de 1,84% ao ano. Em área, a perda anual de florestas naturais foi de 6,5 milhões de hectares ao ano. Apesar do aumento anual de 3,3 milhões de hectares de plantações lenhosas, a pressão sobre as florestas naturais persistiu elevada.

Recentes anúncios sobre o aumento da exploração na região amazónica corroboram uma persistente pressão sobre as florestas naturais. Não raras vezes, a pressão sobre estas florestas decorre do interesse na instalação de plantações lenhosas. Há que ter em conta, por exemplo, a diminuição da área da Mata Atlàntica e o aumento da área de plantações de eucalipto para celulose e papel em vários Estados do Brasil.

A anunciada intenção da União Europeia em aumentar a taxa de utilização da biomassa florestal primária para a produção de energia eléctrica não augura diminuição da pressão sobre as florestais naturais e semi-naturais em países terceiros, designadamente nos Estados Unidos, no Canadá, na Rússia e no Brasil. Mesmo no espaço da União, tem-se registado um aumento dessa pressão, como registado na Polónia ou em Itália, incluindo em áreas da Rede Natura 2000.

Face à actual confusão (propositada?) de conceitos, a que se estará a referir Attenborough quanto a “farm trees”. Sera à plantações de exóticas ou a reflorestação, por plantação, de espécies autóctones? Estará a referir-se a “plantations for people” da WWF? Seja lá o que isso representa.

Sem uma alteração dos padrões de consumo, as plantações lenhosas serão incapazes de assegurar uma diminuição da pressão pela procura de madeira em florestas naturais. Antes pelo contrário, podem aumentar essa pressão. As plantações lenhosas estão associadas à produção de madeira para trituração, para a produção de bens de ciclo de vida curto, como as pellets energéticas ou o papel. Nas florestas naturais e semi-naturais, a procura incide sobretudo por madeira para serração, associada a bens de ciclo longo, como a madeira para construção e para mobiliário.

Para uma diminuição efectiva da pressão sobre as florestas naturais e semi-naturais, as plantações lenhosas terão de ser associadas à utilização preferencial da madeira em regime de cascata, com utilização prioritária para a produção de bens de ciclo longo de sequestro de carbono, reutilizados depois os resíduos de madeira da indústria transformadora na produção de bens de ciclo curto. Curiosamente, Portugal tem-se especializado cada vez mais na produção de madeira para trituração, em detrimento da cortiça e da madeira para serração.

Sem adequar os padrões do consumo de madeira à necessidade de preservar as florestas naturais, a mensagem de David Attenborough não passa, infelizmente, de mera falácia.

No caso português, como noutras regiões do mundo, as plantações lenhosas de espécies exóticas estão ainda associadas a enormes risco de depreciação do território rural e delapidação dos recursos naturais endógenos, seja pela perda de biodiversidade e pela maior facilidade na proliferação de pragas e doenças e propagação dos incêndios rurais.

Foto de Olinda Gama (Revista O Instalador)



Paulo Pimenta de Castro


Engenheiro silvicultor

Presidente da Direcção da Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal

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