quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Dos autos de fé

João M. A. Soares publicou um artigo de opinião, no Jornal I, no passado dia 23 de Outubro, com o título “O Presidente, os eucaliptos e o regresso aos autos de fé”.

Vou tentar não ser muito sarcástico, independentemente de constarem no artigo “factos” não verdadeiros ou muito discutíveis.

Tanto quanto julgo saber, um auto de fé corresponde a uma daquelas encenações macabras da Inquisição, em que se trajavam os ditos hereges com uma túnica de peregrino e os encaminhavam em procissão para a fogueira. Hoje em dia é algo semelhante com o que se passa com os “palitos”, no caso despidos de casca, que são encaminhados para cozedura. Estranho que quem recorra a imagem do auto de fé seja quem esteve ligado ao envio de “palitos” para cozedura. Isto está relacionado com política florestal em Portugal? Aparentemente não, mas só aparentemente!

Há quem se sinta acossado pelos acontecimentos, depois de uma explosiva germinação de milhões de sementes de eucalipto pela área ardida em 2017. Os agora acossados são aqueles que durante as últimas décadas têm condicionado as decisões políticas em matéria de política florestal em Portugal a seu favor. Respondem agora, não ao problema, mas sobre os ambientalistas. Ainda não entenderam o problema! De facto, os ambientalistas há muito chamam a atenção para os problemas que têm vindo a ser criados pela expansão epidémica do eucalipto pelo território nacional. Entre outros, também para os mais de 600 mil hectares em gestão de abandono, produtividades miseráveis de 6 metros cúbicos hectare ano como média nacional, mais de 122 mil hectares ardidos só em 2017. Não entenderam que, a acção do Presidente da República no arranque de plantas de eucalipto dificilmente se enquadraria numa acção de grupos ambientalistas. É bem mais provável que responda às preocupações dos Autarcas e estes às preocupações legitimamente manifestadas pelas suas Populações. Ou, será que agora os acossados agrupam todos no rol de ambientalistas? Haja decoro!

Se há espaço para a produção de rolaria de eucalipto para a produção de pasta celulósica em Portugal? Há! Mas, será conveniente voltar as necessidades manifestadas pela indústria papeleira em tempos de, ainda, alguma responsabilidade social, aos 300 mil hectares de ocupação territorial. Portugal não tem estrutura fundiária, populacional e financeira para suportar monoculturas. A de eucalipto, que ocupa cerca de 10% do território do país, acabou numa gigantesca epidemia, a qual terá de ser alvo de um resgate bem próximo. Mais um! Desta vez não será a um banco, mas o volume financeiro do peso sobre os contribuintes não ficará atrás.




Paulo Pimenta de Castro
Presidente da Direcção da Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Carta aberta a quem se sentir responsável pelo futuro do Pinhal do Rei – Pinhal de Leiria


Todos os dias são dias para ajudar a resolver os graves problemas que se estão a avolumar nesta reserva ecológica que, por incúria dos homens que dela se deveriam responsabilizar, continua a ser “comandada” pelos desígnios da natureza, sem qualquer retoque ordenador da mão sabedora de quaisquer responsáveis pagos pelo esforço social dos nossos impostos!

Todos os dias são dias para que, a capacidade crítica daqueles que entregaram parte substancial das suas vidas em defesa desta emocionante causa da protecção do ambiente e, logicamente, da natureza, ao colocarem, quantas vezes em causa o seu prestígio, imagem, futuro, estabilidade familiar e outras vertentes que fazem parte do ser-se integro e voluntarioso com trabalho protector daquilo que outros exploram ignobilmente.

Todos os dias são dias para sofrer derrotas e desilusões, sempre arquitectadas por aqueles que não pensam do mesmo modo, que se apaixonaram em primeiro lugar pelos vaidosos interesses materiais da vida!

Todos os dias são dias...

A 8 de Agosto foi mais um dia especial para uma interacção harmoniosa num encontro de vontades conducentes à intransigente defesa que se deve prosseguir em
favor da regeneração do Pinhal do Rei ou seja, da Mata Nacional de Leiria.

Pessoalmente não sei dizer quantas visitas guiadas já organizei no vasto território deste malogrado Pinhal. Ontem foi a última, não no sentido restrito da palavra, mas no sentido temporal.

Foi com prazer que recebi Domingos Patacho, da Quercus, e Paulo Pimenta de Castro, da Acréscimo.

Para o maior “cemitério florestal” do país se combinou a visita, com um programa muito pesado para a temperatura que se sentia. Porém, os trabalhos previstos não conseguiram ultrapassar o número um do programa! Tratava-se e tomar conhecimento dos efeitos directos da ineficácia que se “adoptou” perante o que seria necessário como controlo da proliferação de determinadas infestantes na zona compreendida entre a ponte do Ribeiro de Moel e o prolongamento desse mesmo Ribeiro até ao começo da zona não ardida.

Senhores do Governo, dessa vertente florestal desde o senhor Ministro das Finanças, senhor Primeiro-Ministro, senhor Ministro da Agricultura e Florestas, senhor Secretário de Estado das Florestas:
  • Receber as receitas provenientes da venda de madeiras do PL sem que se faça qualquer cabimentação a favor da regeneração da zona ardida é uma péssima opção;
  • Permitir que o comando financeiro pertença, neste caso especial a alguém que nada tem a ver com as florestas mas sim com o próprio equilíbrio orçamental do Estado, não é mais do que uma oportunidade de acrescentar, por enquanto, mais de 12 milhões que aparecem de forma inesperada para minorar outros erros! 

O Senhor Primeiro-Ministro, tem obrigação intelectual de fazer um pouco mais e pensar que a Mata Nacional de Leiria pode voltar a ser um exemplo de incompetência política ou de capacidade corajosa de empreendimento ambiental do Estado!! Das duas uma!

A parte ministerial desta vertente do ordenamento e regeneração das florestas públicas portuguesas, tem-se comportado ultimamente, pelo caminho adoptivo do “assobiar para o lado” na expectativa ou esperança inócua do esquecimento popular do calamitoso resultado das florestas portuguesas durante o terrível ano de 2017, por exclusiva incúria do poder político português. É bom que V. Ex.ª. senhor Ministro, retome a assumpção das suas responsabilidades nestas matérias e retome o necessário caminho da recuperação florestal que se exige.

Senhor Secretário de Estado das Florestas, Miguel de Freitas: É a única pessoa que aqui cito pelo seu nome. Primeiro porque tenho por si a consideração que me parece merecer pela sua dedicação e trabalho intenso a favor desta causa de recuperação imediata do Pinhal de Leiria, que defendo. Não se trata de uma reivindicação! Sim de uma questão de lógica.

A primeira de uma série de visitas que os técnicos que no início deste texto assinalo, ofereceu a oportunidade de mostrar a quem conhece o tema, como se está a tornar irreversível a possibilidade de recuperação adequada de algumas zonas da Mata Nacional de Leiria.

Temos em programação outras visitas mais alargadas a algumas personalidades da silvicultura portuguesa, para que se possa, no local próprio, denunciar tudo aquilo que não está a ser feito de modo a garantir tamanho descalabro!

Ora vejamos:
  1. Na zona limítrofe da Ponte do Ribeiro de Moel, a primeira intervenção que julgo ter sido realizada pelo ICNF, consistiu no derrube de todos (menos um) os centenários eucaliptos que caracterizavam o local! Os senhores do ICNF ao derrubarem estas gigantescas árvores, motivaram a projecção de milhares (muitos milhares) de sementes em redor das árvores derrubadas.
  2. As copas destas gigantescas árvores foram colocadas em improvisado estaleiro no lado oposto da estrada que divide o espaço.
  3. Como resultado estas copas largaram no terreno o que restava das sementes dos eucaliptos.
  4. O que aconteceu? No espaço circundante – mais de 200 metros de diâmetro – prolifera uma vasta floresta de eucaliptos, muitos milhares, alguns dos quais já com mais de 2 metros de altura!
  5. Ainda perto deste local, não se cuidou de eliminar meia dúzia de rubínias que ali existiam e hoje, para espanto de alguns, prolifera verdejante uma enorme floresta desta espécie invasora.

Mas, regressando à Ponte do Ribeiro de Moel, para voltar à direita ao longo desse ribeiro, vamos deparar com milhares de árvores destas duas espécies invasoras denunciadas e, segundo a opinião dos silvicultores que me acompanharam nesta limitada e demorada visita, estão a tomar forma incontrolável.

Populares (?) resolveram plantar choupos em diversos locais. Porém o que fizeram foi construir focos de destruição da estrutura viária, porque plantaram esses choupos, rigorosamente encostados ao piso asfaltado de que resultará a destruição do pouco que resta utilizável daquele equipamento! Boa vontade, mau serviço!

A tentativa mediática de construir equipamentos de retenção de areias na zona da Ponte do Ribeiro de Moel, tem os resultados bem visíveis. Inacabada a obra, faltou a aplicação de mato verde na parte superior das paliçadas para permitir a eficaz funcionamento do projecto, e tem hoje um aspecto de precoces estragos.

Assim se desconstrói o futuro da Mata Nacional de Leiria.

Voltaremos!




por Gabriel Ramos Roldão

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Eucalipto, espécie invasora?


(Artigo publicado no jornal Público, a 25 de Julho de 2018)

Em 2009, o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade elaborou uma proposta para classificar o eucalipto como espécie invasora. Todavia, sem que fosse revelado o motivo, a proposta desapareceu. Em Portugal, uma decisão sobre o carácter invasor do eucalipto terá suporte científico ou os interesses financeiros sobrepor-se-ão?

De acordo com a lei, espécie invasora é aquela que é susceptível de, por si própria, ocupar o território de uma forma excessiva, em área ou em número de indivíduos, provocando uma modificação significativa nos ecossistemas. Os eucaliptos, a par das acácias e das háqueas, são espécies não indígenas (exóticas). Importa ter em atenção que, as espécies não indígenas, com carácter invasor e já introduzidas na Natureza terão de ser objecto de um plano nacional com vista ao seu controlo ou mesmo à sua erradicação.

O eucalipto ocupa cerca de 10% da superfície de Portugal, a maior área relativa de plantações de eucalipto a nível mundial.

No final de 2017, em Espanha, o Comité Científico do Ministério da Agricultura, Pesca, Alimentação e Meio Ambiente, por unanimidade, emitiu um parecer para a inclusão do eucalipto no Catálogo Espanhol de Espécies Exóticas Invasoras. Por cá, o mesmo foi defendido no Guia Prático para a Identificação de Plantas Invasoras em Portugal Continental, publicado pela Universidade de Coimbra.

Já em 2018, o Governo espanhol decidiu ignorar o parecer do seu Comité Científico. As plantações de eucalipto representam 3% da superfície florestal espanhola e 32% da madeira consumida pele indústria papeleira naquele país. Em Portugal estão razoavelmente bem identificadas as portas giratórias entre o exercício de cargos públicos, incluindo funções governamentais, e o exercício de cargos privados na indústria papeleira. Não será, pois, de estranhar que o desfecho registado em Espanha tenha semelhante resultado em Portugal. A iniciativa tomada em 2009 pelo então ICNB, rapidamente "desaparecida", aponta nesse sentido. A “fundamentação” financeira sobrepôs-se à fundamentação científica.

Em todo o caso, para além de uma fundamentação científica ou financeira, existe também a possibilidade de uma decisão judicial poder considerar uma espécie como invasora. Em Espanha, o Supremo Tribunal, em 2016, determinou que o E. nitens é espécie invasora e de elevada perigosidade.

A par do perigo inerente ao carácter invasor, no caso específico nacional, importa ainda ter em conta o carácter epidémico de dispersão da espécie no território. Com efeito, os dados do Inventário Florestal Nacional de 2005 (à falta de dados mais recentes), indicam que cerca de 80% destas plantações são submetidas a uma gestão de abandono. O facto tem vindo a fazer aumentar a presença das plantações de eucalipto na área ardida total e na área ardida em espaço florestal. No pós-incêndio não há já dúvidas quanto ao carácter invasor do eucalipto.

O regresso à discussão pública da classificação do eucalipto como espécie invasora é central para o ordenamento do território, para o combate aos incêndios florestais e para o aumento de perspectivas para uma floresta diversificada e rentável para os proprietários florestais, e não apenas para as celuloses.

Nota de esclarecimento:
No passado dia 4 de Julho, o arquitecto paisagista Henrique Pereira dos Santos assinou neste jornal um artigo de opinião "O Estado e o Eucalipto", acerca do livro “Portugal em Chamas – Como Resgatar as Florestas”, do qual sou co-autor com João Camargo. A tese do artigo de opinião é de que o livro é "tecnicamente muito mau". Para atacar a credibilidade do livro, além de abundante adjectivação, Pereira dos Santos utilizou como única referência uma frase truncada acerca de florestas, cortando-a a meio e descontextualizando-a. A frase original, como todos os capítulos do livro, tem por base extensa bibliografia consultada e referenciada. Nesse sentido, erguemo-nos sobre os ombros de gigantes, com a devida citação. As questões originais do livro podem e devem ser discutidas - o novo regime de fogos, a epidemia de eucaliptos, a maior área relativa de eucalipto do mundo com o favor dos governos, aquilo que podemos fazer para mudar a situação - e cá estamos para essa discussão. Mas para isso é preciso um mínimo de argumentos. Não se pode atacar a credibilidade técnica de um livro utilizando para isso uma frase que nem sequer existe no mesmo.

Foto de Olinda Gama

Paulo Pimenta de Castro
Presidente da Direcção da Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal




domingo, 27 de maio de 2018

Bosques peri-urbanos


As "florestas" e bosques peri-urbanos são ecossistemas complexos que se complicam ainda mais pela presença humana.

Devido a esta e à segurança que se lhe exige, a condução técnica destes bosques deve ser exercida por técnicos qualificados, como aliás deveriam ser todos os ecossistemas florestais, mas estes por maioria de razão.

Devido a serem peri-urbanos faz com que o risco de incêndio seja superior, por incúria, por desleixo e por actos criminosos.


O interface urbano/rural como todas as zonas de fronteira são locais de potenciais conflitos sempre maus, para ambas as partes.

Os efeitos do pólen sobre a saúde humana é um factor que tem de ser levado em linha de conta, mas também algumas pragas florestais podem trazer preocupação como por exemplo a processionária do pinheiro (Thaumetopoea pityocampa Schiff.).

As agressões sobre as árvores são constantes e indesejáveis, desde o canivete do apaixonado, que grava na casca da árvore o nome da pessoa amada, abrindo feridas que podem chegar ao câmbio vascular, ás camas de rede que se prendem, aos pregos para pendurar todo o tipo de "tralhas" (cartazes, bandeiras, avisos etc). Os cães abandonados que se podem tornar silvestres, são um risco acrescido a merecer da parte dos responsáveis, a mais cuidada atenção.

As alterações antropomórficas sobre estes ecossistemas podem levar mesmo à sua destruição; o lixo e toda a espécie de resíduos tão lamentavelmente ligados à presença humana, requer da parte dos responsáveis pelos espaços, recursos e meios para a sua remoção que poderão ser elevados, dependendo da frequência com que esta se processa e dos volumes e perigosidade em causa.

Existe ainda um factor, poucas vezes falado, mas que a nossa experiência nos tem demonstrado não ser despiciente; eu chamo-lhe "o síndrome de posse", isto é, a posse que certas franjas da população assumem perante determinados locais que são públicos, logo pertença de todos, que às vezes assumem carácter obsessivo.

Sem querer ser exaustivo, repito o que foi já dito por muitos: os espaços florestais devem ser utilizados pelas pessoas, numa óptica de uso múltiplo das florestas esperando-se destas o respeito e o cuidado que estes espaços merecem, para serem utilizados por muitos e serem fruídos por todos.

Hélder Joia da Silva

Engenheiro Silvicultor



sexta-feira, 18 de maio de 2018

As podas camarárias


Em 1994 escrevi, em co-autoria com o Prof. António Fabião. um artigo para a Revista Florestal sobre "As podas camarárias": considerações sobre a futilidade de uma acto de mutilação. Volto ao assunto vinte e quatro anos depois porque continuo a ver que esta prática se instalou nas nossas vilas e cidades. sem que os responsáveis se apercebam dos malefícios que provocam nas árvores urbanas.

Pelos benefícios que nos trazem é impensável uma urbe pequena ou grande sem árvores; estas são um filtro de poeiras, sumidouros de CO2, dissipam energia dos ventos, absorvem ruído, dão-nos sombra, são um suporte da diversidade biológica.

A ablação total das copas não faz sentido algum; retira nutrientes, retira a capacidade das árvores desenvolverem os benefícios que cito, provocam o crescimento radicular para além do desejável, desequilibra totalmente o equilíbrio dos indivíduos mutilados (sim, porque é de mutilação que falamos) é inestético, não traz em suma qualquer benefício.

Cada árvore tem um crescimento distinto; não se deve adaptar a árvore ao local mas escolher a árvore mais adequada para o local. penso que está aqui a justificação para as talhadias altas que vemos por todo o lado. Não sendo por uma necessidade absoluta, de controlar crescimentos indesejáveis, só posso atribuir esta prática a uma total e absoluta ignorância.

Rolar uma árvore (assim se chama na gíria, ás talhadias de cabeça) deve ser feita por quem tenha conhecimentos sobre esta prática. Não basta saber trabalhar com uma motosserra; a orientação das superfícies (feridas) que ficam expostas, a protecção destas e dos câmbios suberoso e vascular são do conhecimento vulgar, de quem sabe.

Não conto, com mais este alerta, modificar alguma coisa. Fica, no entanto, o desabafo do Silvicultor e acima de tudo do Cidadão.



Hélder Joia da Silva
Engenheiro Silvicultor


sexta-feira, 20 de abril de 2018

DESENVOLVER O INTERIOR COMBATENDO A DESERTIFICAÇÃO E OS FOGOS


A todos nós nos une o gosto pelo nosso País, e em particular as nossas Aldeias e Vilas espalhadas por todo o Portugal. Compete-nos então, não só comtemplá-las, mas fundamentalmente mantê-las vivas e de preferência, reativá-las e dar-lhe novas aptidões. Quem vive hoje nas Aldeias e pequenas Vilas, tem vindo nas últimas décadas, a ser despojado de tudo o que lhe era muito caro, e que contribuía para se sentir mais apoiado, (ex. Escolas, Juntas de Freguesia, Centros de Saúde, Creches, transportes coletivos, pequeno Comércio, etc.,). Sabemos que a reversão não é fácil, nem poderá voltar a ser como era, mas não temos qualquer dúvida, que todas estas populações estão privadas, dos mais elementares meios que uma sociedade no século XXI.

Assim sendo, teremos de reivindicar a mais elementar medida de Justiça Social, que é, para situações diferentes, teremos de adotar medidas diferentes, logo não é admissível, que quem não tem à sua disposição os mesmos meios e serviços, continue a estar sujeitos aos mesmos impostos dos outros que tudo têm. Teremos então, de exigir um tratamento fiscal, proporcional às condições de vida que lhes são oferecidas. Nesse caso faz todo o sentido, que quem tem residência permanente nessas Aldeias e pequenas Vilas, tenha um escalão de IRS muito mais baixo ou simplesmente isento, para valores bem superiores aos que já hoje são contemplados.

Igualmente o pequeno comércio, serviços, agricultura e indústria, com rácios Vendas/ Trab./ano inferiores a 60 mil euros, devem estar isentos de IRC, e os escalões (que defendemos) seguintes, não poderão ser superiores a 50%, dos instalados em centros de maior expressão. Só assim será possível criar emprego nestes locais, e consequentemente voltar a fixar pessoas, e dar nova vida às nossas maravilhosas “Aldeias”. Se não fizermos nada, iremos assistir sentados à morte de cada uma delas, e restará apenas a lembrança, para podermos contar às gerações vindouras, começando pelo princípio de todas as histórias, “ERA UMA VEZ NUMA ALDEIA”.

As autarquias esgotaram o seu papel atual, terão agora de mudar de paradigma, e passarem a ser um aglutinador e catalisador da iniciativa local, fomentando em diferentes momentos, um novo processo de implementação de “parques agrícolas”, desenvolvendo as sinergias necessárias para a atração de potenciais investidores, produtores, proprietários e redes comerciais. Os municípios devem reorientar os construtores e investidores, para as instalações diretamente ligadas aos “parques agrícolas”, tais como; estufas duradouras, armazéns/silos, salas de ordenha, instalações diversas para fins agropecuários, etc. Estas ligações são tanto ou mais importante, quando sabemos, que quer os atuais agricultores, quer os potenciais novos aderentes, não têm em regra nem o capital necessário, nem o crédito para o obterem.

Os concelhos de cariz essencialmente agrícola devem, portanto, reorientar os investimentos para a produção no sector primário, preferencialmente vocacionado para o mercado global com especialização técnico produtivo em produtos específicos, constituindo uma mais-valia para a inversão da decadência socioeconómica do interior do país. A “reinvenção” das práticas culturais e da organização das mesmas em “parques agrícolas” será certamente a solução de menor custo, com maior rendibilidade social e económica. A região Oeste na produção de hortícolas e pera rocha são bons exemplos a replicar noutras regiões com outros tipos de produtos.

A estes “parques agrícolas”, deverão ser associadas unidades de seleção, de embalamento, de frio e algumas unidades de indústria agroalimentar, provocando a criação de empregos na área técnica e administrativa/comercial, e em complementaridade com os Institutos Politécnicos existentes na sua área, promovendo assim a fixação de população. O conjunto de parques poderão englobar mais do que um município contíguo, e disporem num raio de 20 quilómetros, de uma pequena unidade de biomassa, (ex. Gussing na Áustria), que de acordo com os proprietários, poderiam recolher todos os materiais da limpeza, tendo como objetivo a produção de eletricidade, de forma autónoma da EDP, permitindo desse modo energia local mais barata, o que seria seguramente um forte atrativo á implantação de outros setores da área económica, acessos condignos, a escolas e centros de saúde. Não se investir na agropecuária e floresta, é não dar resposta aos problemas de desertificação e emprego do interior.

A limpeza da floresta atualmente exigida, sem qualquer compensação económica é simplesmente estúpida, o governo e em particular os ministros, da Agricultura, do Ambiente, da Administração Interna e o do Planeamento e das Infraestruturas, são particularmente responsáveis, por tudo o que está a acontecer, e por tudo mais que brevemente veremos. Obrigar penalizando com coimas a não limpeza dos terrenos florestais, os quais que são em primeiro lugar os maiores absorvedores de CO2, para benefício de todos nós, sem serem minimamente compensados, já é inadmissível, mas mais grave, é não terem em conta os rendimentos dos habitantes, (a maioria esmagadora tem rendimentos muito inferiores ao salário mínimo) e idades na grande maioria superiores aos 70 anos.

Em outros setores da economia, tem-se protegido os mais idosos, não permitindo aumentos de rendas ou mesmo de despejo, mas os idosos do interior, porque têm poucos votos, não são dignos de um tratamento igualmente humano. Esses senhores ministros são igualmente “incompetentes”, ao não saberem que 1.000 metros quadrados de “floresta” poderão apenas render €158,20 ao fim de 15 ou 20 anos (€0,66 a €0,88 por mês) conforme o tipo das árvores atuais que possuem, esquecem igualmente, que a venda de um terreno (1.000 m2) após o corte das árvores, não vale mais do que uns míseros €400,00, é a estas pessoas velhas e pobres, e aos que tiveram de imigrar por falta de condições nesse interior, que o governo quer ser forte, mas porque são fracos, mas essa fortaleza acaba, face aos contratos ruinosos para todos nós, ao cartel de preços ou às imparidades.

A nossa indignação aumenta, quando constatamos, que as nossas discordâncias com as medidas destes senhores, infelizmente se confirmam, 3 idosos este mês, foram vitimas das chamas enquanto tentavam limpar os seus terrenos, um casal em que a mulher está hospitalizada, e o marido com mais de 70 anos ficou carbonizado, o mesmo aconteceu a outro idoso com mais de 90 anos. Esta gente arriscou e morreu, porque não tinha condições económicas para pagar esse serviço. Mesmo que tivessem umas pequenas economias, de umas centenas de euros, sabendo que segundo estes “ditadores” o terão de fazer para sempre, não os poderão gastar, sobe pena de lhes faltar para outros fins, nomeadamente os remédios.

 No passado nada disto era necessário, existiam populações significativas, os pequenos ramos eram usados nos fogões para cozinhar, (não havia gás) as madeiras um pouco maiores eram utilizadas nas lareiras, e o mato servia de pasto dos animais, bem como para cobrir os seus redis, e posteriormente como adubo.

Assim, se este ano os fogos voltarem a fustigar estradas e aldeias, serão os seus moradores e as Câmaras os únicos culpados, veremos à custa de quantos mais mortos na prevenção, mais miséria e mais desertificação, infelizmente os problemas do interior do País não resolvem simplesmente com afetos, precisamos de muitas medidas de descriminação positiva para os resolver, porque como diz o povo “Palavras Levas o Vento”.


por José Manuel Veludo, Mestre em Sociologia



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

OS FOGOS, A DESERTIFICAÇÃO, E AS MEDIDAS PARA HOJE E PARA O FUTURO

Nunca fazemos a tempo, o que é necessário e que podemos e devemos fazer, sem mais discussões, estudos e comissões, que por si só nada resolvem. Estão quase todos os responsáveis políticos, estudiosos e comentadores, a dar opiniões para o futuro, como se o acontecimento que tanto nos comoveu, tivesse acontecido no final do verão e uma vez resolvido, teremos todo o tempo para implementar então novas medidas. A nossa atitude não poderá deixar de ser de raiva, perante semelhantes “responsáveis” que temos, este pesadelo que estamos a viver, tem todas as condições para se repetir nos próximos meses, embora esperemos com outra dimensão.

Este desastre demonstrou claramente, que foi na tentativa de fuga, que 30 pessoas morreram nos seus carros e mais 17 encontrados na mesma zona. Não é necessário, portanto mais “estudos”, temos já hoje dados e Leis concretas, que nos permitem agir de imediato em acções que nos permitirão reduzir substancialmente as consequências funestas de novos incêndios. Referimo-nos claramente ao corte de todas as árvores até 10 metros das bermas (como diz a Lei) das estradas, quando a floresta vem até às estradas. Este trabalho deve ser feito fundamentalmente, nas estradas que devem ser sinalizadas, como de fuga em caso de catástrofe, Vila a Vila, Aldeia a Aldeia este trabalho deve ser começado de imediato.

Não estamos a sugerir, que isto seja feito em todo o lado, mas sim onde é vital à defesa de vidas, igualmente não há necessidade de ser feito, quando por detrás de uma fileira de árvores que ladeiam uma estrada, está apenas um normal campo agrícola. Não poderemos mais aceitar, que num futuro próximo, alguém venha a morrer porque a sua fuga o conduziu ao “inferno”.

Mas para o futuro, não é possível resolver o problema dos fogos, unicamente ordenando a floresta e dimensionando-a por forma a ser rentável, temos de ter em conta tudo o que hoje já sabemos do futuro de amanhã, a saber; Temos de combater a desertificação, voltando a repor em raios máximos de 15 quilómetros, Escolas, Juntas de Freguesia, Centros de Saúde, transportes colectivos, pequeno Comércio, etc., sabemos que a reversão não é fácil, nem que tudo poderá voltar a ser possível, mas não temos qualquer dúvida, que estas populações estão privadas, dos mais elementares meios, incluindo a defesa da própria vida.


A fuga do interior par as cidades em busca de trabalho, vai deixar de fazer sentido, com as novas formas de criar riqueza (inteligência artificial, robótica, etc.), vai seguramente ter de haver um regresso parcial ao campo, mas terão de haver outras condições.

Existem soluções, para além de um novo aproveitamento agropecuário, temos o aproveitamento de uma das energias renováveis, que são as centrais de biomassa, que se “alimentam” precisamente dos resíduos provenientes da limpeza do parque florestal. Pensamos que o podemos fazer em Portugal, em unidades de pequena dimensão que se alimentem das limpezas num raio não superior a 30 km, de acordo com os proprietários ou sempre que estes não procedam a essa limpeza, as Câmaras em colaboração com as respectivas centrais de biomassa, se encarregariam dessa limpeza.

Podemos começar de novo a criar condições, que permitam aos habitantes dessas aldeias, aos seus filhos, e a muitos que já não encontram trabalho nas grandes áreas urbanas e industriais, a procurarem aí uma nova forma de vida. Teremos então de realizar uma grande reforma fiscal, para todos que nelas vivam, trabalhem ou tenham os seus negócios.

Num sector dependente, do sol, da chuva, do gelo, das pragas e calamidades, o governo aplicou esta carga fiscal imoral, que lhe terá rendido, umas poucas dezenas de milhões, em troca temos uma catástrofe ecológica, com consequências imprevisíveis para as pessoas e seus animais, e com custos económicos de muitas centenas de milhões de euros.

Os autarcas dos concelhos essencialmente agrícola devem, passar a serem um aglutinador e catalisador da iniciativa local, fomentando a implementação de “parques agrícolas”, promovendo a atracção de potenciais investidores, produtores, proprietários e redes comerciais, reorientando os investimentos para a produção no sector primário, preferencialmente vocacionado para o mercado global com especialização técnico produtivo em produtos específicos, constituindo uma mais-valia para a inversão da decadência soco-económica do interior do país.

Estas são algumas das medidas futuras, que têm de estar presentes na discussão sobre o combate ao flagelo dos incêndios, sob pena de não debelarmos o problema, mas para hoje há que proceder à limpeza dos caminhos de fuga, para quando a situação o impõe.



José Manuel Veludo
Mestre em Sociologia

(Publicado a 20 de Junho de 2017 na página do autor no Facebook)