sexta-feira, 18 de outubro de 2019

As Matas têm um programa de recuperação e daí?


Se atendermos ao facto de que as Matas foram vítimas de uma catástrofe em Outubro de 2017, digamos que a reacção governamental poderá ser tudo menos adequadamente célere. Preocupa-me em especial a protecção da orla costeira, na fixação das dunas, há muito desprotegidas. Em todo o caso, o governo pode agora argumentar que tem um programa. Passados dois anos sobre os trágicos acontecimentos.

Se o programa serve para prevenir? Em si é um exercício teórico, que segue de perto o que tem sido a escola florestal das últimas décadas. Contem muitas e oportunas recomendações, mas é desprovido de esboço de plano de investimento e de um plano de financiamento. Esta característica é, em parte, usual nos próprios planos de gestão florestal, em geral e de cada uma das Matas Nacionais em particular. Digamos que facilita a vida ao actual decisor político: tem um programa, mas a responsabilidade de definição e afectação de meios caberá a governantes futuros.

Parece evidente a ausência de competências essenciais na equipa que elaborou o programa, designadamente na componente social e económica. Presumo que tal tenha decorrido de decisão política.

Há que ter presente que o desempenho dos programas e planos florestais em Portugal tem-se traduzido na constatação de que foram engavetados ou exibiram taxas de execução residuais. Na base estão, em minha opinião, as ausências apontadas, a ausência de análise financeira. Isto para já não ir à ausência de análise económica e institucional, atendendo a que se trata de um programa destinado a ser concretização por uma ou várias entidades públicas.


Prioritariamente, deveria já ter havido intervenção musculada nos talhões que constituem a faixa de protecção da orla costeira. O sucesso que possa ocorrer nos talhões interiores tende a ser muito afectada pelo sucesso ou insucesso na fixação das dunas, na protecção contra os ventos marítimos, contra a salinidade.

O combate às espécies invasoras, incluindo o eucalipto, tem sido quase nulo. Em especial, nos talhões que não foram afectados pelos fogos de 2017. A situação pode-se considerar bizarra.

Os talhões ardidos são hoje um viveiro de pragas e doenças. Em vez de se terem consumido verbas públicas em viagens e estadias de especialistas internacionais em fogo, para constatar o óbvio, deveriam ter sido consultados técnicos franceses na preservação de madeira de pinho para evitar oportunismos de mercado e maximizar os ganhos do Estado. A França dispõe hoje da maior mancha de pinhal bravo e tem demonstrado saber cuidar técnica e comercialmente desse activo.

Na rearborização, as acções de voluntariado são importantes para a sensibilização da população para a importância das florestas na adaptação às alterações climáticas. Mas, o Estado não pode ter no voluntariado cívico um respaldo para o deficiente cumprimento das suas obrigações constitucionais. No domínio da rearborização, tenho fortes e justificadas preocupações quanto à opção pelo recurso à regeneração natural. Esta opção serve muito à técnica lusa do “empurrar com a barriga”. Os custos iniciais são baixos, o que importa assegurar para quem governa na actualidade, mas as intervenções silvícolas posteriores são mais caras, o que impacta na decisão de governantes futuros.


As ignições são um problema nacional, já histórico, agregado ao mau uso do fogo, seja ou não com intuito criminal. Todavia, a propagação tem muito a ver com a acção do gestor florestal, neste caso o Estado. É para mim evidente que a gestão das Matas se traduzia numa gestão de abandono, na fruição da acção da Natureza, sem reinvestimento adequado, quer em meios humanos, quer materiais e financeiros.

Quando a ignição ocorre em espaços com condições favoráveis à propagação, o “êxito” tende a ser maior. Se adicionarmos a desmobilização de meios de socorro, este “êxito” tende a ser preocupante. Em todo o caso, em 2017 as condições de propagação foram excepcionais, associadas a um fenómeno meteorológico raro, o furacão Ophelia. O “êxito” foi catastrófico. Se a ignição teve origem criminosa, creio que o ou os criminosos se terão surpreendido com o resultado. Ao fenómeno meteorológico raro de 2017 há que adicionar o de 2018, com a tempestade tropical Leslie. Parece não haver dúvidas de que a recorrência de fenómenos até há pouco tempo raros se deve as alterações climáticas. Estes fenómenos influenciam a ocorrência de grandes e mega-incêndios. Em 2017 tivemos um aviso sério de que devemos mudar de paradigma. Essa mudança de paradigma não quer dizer que se troquem os pinheiros pelos sobreiros nas Matas do litoral. Uma bizarria. Mas sim que a florestas, sejam as públicas ou as privadas tem de ter uma gestão activa. Esta gestão activa é mais premente em áreas públicas.


Paulo Pimenta de Castro
Engenheiro Silvicultor
Presidente da Direcção da Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Mais apoio público às celuloses?


É recente o aval da Comissão Europeia para o apoio estatal à Navigator, no montante de 12 milhões de euros, destinado ao complexo industrial em Cacia, Aveiro. Já em 2018, o Estado concedeu um crédito fiscal em sede de IRC à Navigator, envolvendo o aumento de capacidade industrial na unidade fabril da Figueira da Foz. Anualmente, as celuloses auferem milhões de euros do Estado sob a forma de benefícios fiscais. Não é difícil encontrar as celuloses nas posições cimeiras em montante de benefício constante das listagens anuais da Autoridade Tributária e Aduaneira, logo a seguir a empresas do sector energético. Este último onde as celuloses têm assumido crescente destaque. Pela queima de árvores também produzem electricidade.

No que respeita aos apoios ao abastecimento em madeira de eucalipto, o actual governo, em 2017, aprovou uma ajuda pública de 18 milhões de euros destinada a acções de replantação com eucalipto (sinal de que a “rentabilidade” da cultura está envolta em falácias). Foi ainda este governo que, na aprovação dos Planos Regionais de Ordenamento do Território, possibilita a expansão da cultura por too o país, incluindo no mítico e degradado Parque Nacional da Peneda Gerês. No histórico do actual governo fica ainda o maior “licenciamento” da expansão da área de eucalipto, desde Outubro de 2013.

Há dias, o governo anunciou ter disponíveis 3,7 milhões de euros, através do Fundo Ambiental, para apoiar acções de arranque de eucalipto. O apoio do Fundo Ambiental, estabelecido no Aviso n.º 13655/2019, de 2 de Setembro, emitido pelo Ministério do Ambiente e Transição Energética, tem no descritivo a remuneração dos serviços dos ecossistemas em espaços rurais. Até aqui estamos de acordo. É urgente complementar a equação do rendimento em espaços rurais com a remuneração á prestação dos vários serviços que a sociedade usufrui a partir de tais espaços. Entre estes estão a preservação dos solos, da biodiversidade, da quantidade e qualidade da água, da paisagem, do turismo.

Mas, será que esta remuneração dos serviços dos ecossistemas, que inicia com o arranque de eucaliptos, envolve a redução da área desta espécie no território português? Não necessariamente! Depende. Na base da medida pode estar um apoio encapotado à transferência de plantações desta espécie exótica entre diferentes regiões do território nacional, envolvendo inclusive o apoio à permuta entre áreas sob gestão das celuloses. Esta permuta está prevista na Lei n.º 77/2017, de 17 de Agosto, concretamente no seu Artigo 3.º-B. Os encargos associados a este arranque têm valores mínimos de 500 euros por hectare, avançados pelo Ministério da Agricultura, para áreas com declive inferior a 5% e uma densidade até 800 cepos por hectare.

Estudos indicam um crescente condicionamento ambiental à cultura do eucalipto a sul e um subsequente aumento da pressão a norte. Na base estão as alterações climáticas. Se esta transferência tiver o suporte do Orçamento tanto melhor, não ficam comprometidas parte da distribuição de dividendos aos accionistas.

O apoio do Fundo Ambiental tem por beneficiários entidades nas quais as celuloses, através das unidades sob sua gestão existentes nas áreas geográficas abrangidas por tais entidades, se podem constituir com sócias ou associadas, consoante tais entidades estejam constituídas nos termos do Código das Sociedades Comerciais, do Código Civil ou do Código Cooperativo. Podem assim auferir facilmente do generoso apoio estatal.

As áreas a que se destina o apoio, a Paisagem Protegida da Serra do Açor e o Parque Natural do Tejo Internacional, envolvem os concelhos de Arganil, Castelo Branco, Idanha-a-Nova e Vila Velha do Ródão. Nestes concelhos, só a Navigator tem sob gestão mais de 16 mil hectares (mais de uma cidade e meia de Lisboa).

Em si, o apoio público a um resgate do território para eliminação da epidemia de eucaliptal, sob gestão de abandono, era expectável e é urgente. No entanto, não é aceitável que esse apoio envolva áreas próprias ou sob gestão das celuloses. Será um prémio à má conduta, à irresponsabilidade empresarial, social e ambiental. Percebe-se, contudo, o apoio às famílias que por estas foram arrastadas no pressuposto de falaciosas rentabilidades, muitas vezes através de contratos leoninos. Vê-se que essa “rentabilidade” carece do suporte do Orçamento de Estado. Quanto mais não seja, para o resgate ao território, associado à urgente redução do risco, no combate ao despovoamento e na luta contra o avanço da desertificação e às alterações climáticas.

Em conclusão, urge que o governo esclareça que no âmbito deste apoio do Fundo Ambiental não estão envolvidos os “projectos de compensação”, previsto no “alçapão” criado pelo disposto no Art-º 3-º-B da Lei n.º 77/2017, que possibilita a transferência de plantações de eucalipto entre regiões do país. Tais permutas devem ser asseguradas pelas próprias celuloses, desonerando o investimento público pelos erros privados que cometeram.


Paulo Pimenta de Castro
Engenheiro Silvicultor
Presidente da Direcção da Acréscimo, Associação de Promoção ao Investimento Florestal

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Florestas e promessas


Aproxima-se um novo acto eleitoral. Como é habitual, antecede-o um período de anúncio de “boas” intenções.

Face aos acontecimentos dos últimos anos, o interior, as florestas e a silvicultura tendem a usufruir de maior destaque no rol eleitoral das “boas” intenções. Há que relembrar que, por três anos consecutivos, Portugal registou a maior área ardida no conjunto de Estamos Membros da União Europeia (em 2016, 2017 e 2018). O número de vítimas e danos subsequentes foi catastrófico. O território evidencia um elevadíssimo risco, em crescimento. A protecção e o socorro às populações teve, na presente legislatura, um dos seus piores desempenhos, se não o pior dos últimos 50 anos. Deste modo, da situação e da oposição são de esperar anúncios de soluções virtuosas, contidas em “programas”, “planos”, “estratégias”, ou “reformas” e mais diplomas legislativos. Destes últimos, à quantidade tem correspondido cada vez maior área ardida.

Há que ter ainda presente que, no que respeita às florestas e à actividade silvícola, Portugal dispõe de uma Lei de Bases. Uma Lei aprovada por unanimidade no Parlamento, há já quase um quarto de século. Se os princípios e objectivos expressos na Lei n.º 33/96, de 17 de Agosto, tivessem sido o rumo, muito provavelmente, a situação no país e do país face ao exterior seria substancialmente diferente. O que é facto é que os muitos “programas”, “planos”, “estratégias”, “reformas” e a legislação produzida para lhes dar contexto acabou por não nos aproximar do enunciado nesses princípios e objectivos. Pelo contrário, o rol de “boas” intenções foi, em demasiados casos, orientado por protagonismos e na defesa de interesses deixados instalar e reforçar junto dos órgãos decisórios. Pagamos o preço, todos! Um preço elevado.

O facto é que, tais “programas”, “planos”, “estratégias”, “reformas”, em especial a do ministro Capoulas Santos, foram incapazes de contemplar o aumento da produtividade dos espaços florestais, numa óptica do uso múltiplo dos recursos e da sua sustentabilidade. Não foi respeitada a manutenção da floresta enquanto recurso indissociável de outros recursos naturais, como o solo, a água, o ar, a fauna e a flora, tendo em vista a sua contribuição para a estabilização da fixação do CO2 e como repositório de diversidade biológica e genética. O facto é que, no rol de “programas”, “planos”, “estratégias” e “reformas”, a espécie que mais foi fomentada, em especial pelo actual governo, foi o de uma espécie exótica, sem que tal tenha contribuído sequer para o acréscimo da produtividade unitária, hoje miserável. As produções que têm tido destaque são as associadas a bens de ciclo curto de fixação de carbono (madeira triturada), em detrimento de bens de ciclo longo, decorrentes da utilização da cortiça e da madeira serrada. Pior, perspectiva-se o uso da rega para a produção de madeira, em período de aumento de escassez para fins prioritários, como o consumo humano e a produção agro-alimentar, bem como o retrocesso civilizacional associado à queima de árvores para a produção de electricidade.

Dos objectivos expressos na Lei, está longe de ter sido assegurada a melhoria do rendimento global dos agricultores e produtores florestais, como contributo para o equilíbrio socio-económico do mundo rural. Pelo contrário, o rendimento silvícola está hoje longe dos valores registados em 2000 e iniciou, na presente legislatura, um novo período de queda (em 2016 e 2017). Ora, o rendimento é essencial para garantir a gestão dos espaços rurais. Gestão essa que deve contemplar obrigatoriamente a prevenção dos riscos, retirando protagonismo ao combate, quer aos incêndios, quer à proliferação de pragas e de doenças. Num país de florestas privadas, o avanço em contramão face a este objectivo justifica grande parte da actual situação de catástrofe

Neste contexto, conforme o previsto na Lei de Bases, devem os eleitores exercer o direito de avaliar adequadamente as “boas” intenções anunciadas pelas diferentes forças partidárias designadamente quanto à sua relação com os princípios e objectivos expostos na Lei.  Até hoje, tem-se avançado em sentido contrário.

Os riscos da não avaliação cívica, neste domínio, são enormes. Não só para as populações rurais, mas também para as urbanas. Entre outros aspectos, na contaminação do ar que respiram, na qualidade da água que consomem. Ninguém está imune, nem sequer além-fronteiras.


Paulo Pimenta de Castro
Engenheiro silvicultor
Presidente da Direcção da Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Sir David Attenborough e as plantações lenhosas


David Attenborough, naturalista britânico, há décadas vem habituando gerações a assistir no sofá às maravilhas e agruras da vida selvagem. Relatos apaixonantes, acompanhados de imagens deslumbrantes, pontuaram em várias séries emocionantes. Produzidas pela BBC, estas séries chegavam regularmente às nossas salas através da televisão.

Numa recente aparição, Attenborough deu a sua voz à defesa das plantações lenhosas. Defendeu-as como instrumento para preservar as florestais naturais. Segundo nos diz, as plantações são essenciais para diminuir a pressão sobre as florestas naturais, face à crescente procura por madeira, no combate à desflorestação. Segundo menciona, são ainda fundamentais para garantir o restauro de áreas antes ocupadas por florestas.

Nesta sua recente mensagem, manteve o relato emocionante, as imagens continuam deslumbrantes. Hoje, a mensagem não só entra em nossas casas pela televisão, como é emitida por múltiplos instrumentos de difusão de sons e imagens.

Mas, não será dúbia a mensagem? Há que analisar o teor da mesma com base no histórico recente, mesmo tendo presente a celebridade e a credibilidade de que goza Sir David Attenborough..

De acordo com a FAO, no último quarto de século, a área de florestas no mundo, plantações incluídas, registou uma contracção de 129 milhões de hectares, aproximadamente a superfície da África do Sul.

Entre 1990 e 2015, a maior perda de área florestal total foi registada na região tropical da América do Sul e de África. A taxa de variação registada foi negativa de 0,17% ao ano. No que respeita à taxa de variação para as florestas naturais, registada no mesmo período, está foi negativa de 0,24% ao ano. Já no que respeita às plantações lenhosas a taxa de variação foi positiva de 1,84% ao ano. Em área, a perda anual de florestas naturais foi de 6,5 milhões de hectares ao ano. Apesar do aumento anual de 3,3 milhões de hectares de plantações lenhosas, a pressão sobre as florestas naturais persistiu elevada.

Recentes anúncios sobre o aumento da exploração na região amazónica corroboram uma persistente pressão sobre as florestas naturais. Não raras vezes, a pressão sobre estas florestas decorre do interesse na instalação de plantações lenhosas. Há que ter em conta, por exemplo, a diminuição da área da Mata Atlàntica e o aumento da área de plantações de eucalipto para celulose e papel em vários Estados do Brasil.

A anunciada intenção da União Europeia em aumentar a taxa de utilização da biomassa florestal primária para a produção de energia eléctrica não augura diminuição da pressão sobre as florestais naturais e semi-naturais em países terceiros, designadamente nos Estados Unidos, no Canadá, na Rússia e no Brasil. Mesmo no espaço da União, tem-se registado um aumento dessa pressão, como registado na Polónia ou em Itália, incluindo em áreas da Rede Natura 2000.

Face à actual confusão (propositada?) de conceitos, a que se estará a referir Attenborough quanto a “farm trees”. Sera à plantações de exóticas ou a reflorestação, por plantação, de espécies autóctones? Estará a referir-se a “plantations for people” da WWF? Seja lá o que isso representa.

Sem uma alteração dos padrões de consumo, as plantações lenhosas serão incapazes de assegurar uma diminuição da pressão pela procura de madeira em florestas naturais. Antes pelo contrário, podem aumentar essa pressão. As plantações lenhosas estão associadas à produção de madeira para trituração, para a produção de bens de ciclo de vida curto, como as pellets energéticas ou o papel. Nas florestas naturais e semi-naturais, a procura incide sobretudo por madeira para serração, associada a bens de ciclo longo, como a madeira para construção e para mobiliário.

Para uma diminuição efectiva da pressão sobre as florestas naturais e semi-naturais, as plantações lenhosas terão de ser associadas à utilização preferencial da madeira em regime de cascata, com utilização prioritária para a produção de bens de ciclo longo de sequestro de carbono, reutilizados depois os resíduos de madeira da indústria transformadora na produção de bens de ciclo curto. Curiosamente, Portugal tem-se especializado cada vez mais na produção de madeira para trituração, em detrimento da cortiça e da madeira para serração.

Sem adequar os padrões do consumo de madeira à necessidade de preservar as florestas naturais, a mensagem de David Attenborough não passa, infelizmente, de mera falácia.

No caso português, como noutras regiões do mundo, as plantações lenhosas de espécies exóticas estão ainda associadas a enormes risco de depreciação do território rural e delapidação dos recursos naturais endógenos, seja pela perda de biodiversidade e pela maior facilidade na proliferação de pragas e doenças e propagação dos incêndios rurais.

Foto de Olinda Gama (Revista O Instalador)



Paulo Pimenta de Castro


Engenheiro silvicultor

Presidente da Direcção da Acréscimo – Associação de Promoção ao Investimento Florestal

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Cultivar o eucalipto


O último número da revista Cultivar – Cadernos de Análise e Prospectiva (N.º 14, de Dezembro de 2018), editada pelo Gabinete de Planeamento e Políticas (GPP), do Ministério da Agricultura, foi dedicado à cultura do eucalipto. Se o intuito do GPP, expresso no Editorial, era o de reduzir a controvérsia e apostar numa abordagem responsável do tema, temo que se tenha ficado pelo caminho. Há questões fulcrais nesta discussão que foram simplesmente ignoradas. Cirurgicamente ignoradas?

Nesses pontos fulcrais, logo à cabeça, há a registar a inexplicável ausência de análise ao funcionamento dos mercados, às relações entre uma oferta pulverizada e uma procura industrial em duopòlio, sobretudo nas consequências que essa forma de relacionamento aporta à sociedade. Não se vislumbrou uma análise à evolução dos preços da rolaria de eucalipto pagos à oferta (à porta das fábricas), nem à evolução dos custos de produção, em energia, combustíveis, mão de obra e equipamentos. Com certeza, este seria um assunto que mereceria forte interesse por parte da produção. Mas, não só! Seria interessante constatar ainda uma análise ao nível dos impactos nos prestadores de serviços, decorrentes dessas evoluções dos preços. Nada! Só uma análise macroeconómica, com destaque para o peso da indústria. As ausências aqui expressas são típicas nas análises emitidas pela indústria papeleira, não o deveria ser por um organismo da Administração Pública.

No âmbito do rendimento, há que considerar a abordagem à conta de cultura do eucalipto, num dos artigos da revista, da responsabilidade de um empresário rural na charneca do Ribatejo. Logo à partida, há que ter em conta que a abordagem em causa respeita a um caso de média e grande propriedade, com as economias de escala daí decorrentes. Não se pode extrapolar esta abordagem à esmagadora maioria dos prédios rústicos das regiões Norte, Centro e Algarve. No caso da região Centro, com prédios rústicos de área média de meio hectare, esta é responsável por mais de 60% do abastecimento às celuloses. É também a região que mais tem sentido o impacto do abandono da gestão por quebra de expectativas de rendimento, com consequências na propagação dos incêndios e da invasão subsequente pelo eucalipto, esta registada, sobretudo, a partir de 2017.

Sem ir de momento ao pormenor dos valores associados às várias operações contidas no modelo de produção, é aceitável que num arrendamento de solos pela indústria de celulose se apresente uma conta de cultura para apenas duas rotações, ou seja, 24 anos. Após esse período finda o arrendamento. Todavia, do ponto de vista de um empresário rural, lenhicultor, essa análise corresponde, apenas e só, a um terço ou, quanto muito, a metade do ciclo produtivo. A análise apresentada peca, claramente, por defeito. Numa análise, segundo a perspectiva de um proprietário ou empresário rural, teriam de ser incluídos os encargos de uma terceira rotação, regra geral de mais baixa produtividade, bem como os custos com as operações essenciais a um subsequente reinício de ciclo, por replantação ou reconversão do solo a outros usos. Concretamente, com o tratamento a dar aos cepos. Ou seja, a análise apresentada na revista Cultivar, para um produtor florestal, está claramente amputada. Neste sentido, afigura-se lamentavelmente tendenciosa. A comparação com as alternativas, produção de pinhão e de cortiça, é inválida. Importa ter em conta que, nas alternativas, outras considerações devem ser tidas em conta, seja quanto a produções agro-alimentares ou produções agro-florestais.

Quanto aos números apresentados, ainda na conta de cultura em causa, optou-se pela análise a preços constantes. Todavia, numa análise a preços correntes, as conclusões teriam de ter em conta a evolução dos preços da rolaria à porta da fábrica, face à evolução dos custos dos factores de produção, no decurso do ciclo produtivo. Esta ausência é mais um vício a apontar à análise apresentada na revista.

Ainda quanto à apreciação na generalidade do conteúdo da revista, há a constatar a ausência de artigos sobre alternativas à produção de madeira de eucalipto que não apenas para celulose e papel. Por conveniência?

Constata-se ainda a ausência de abordagem aos graves problemas sanitários que afectam esta cultura e que induzem graves quebras no rendimento. Nada que aponte para um eventual sucesso nas várias iniciativas de luta, que se presumem em curso. As pragas e as doenças que afectam o eucalipto agravam ainda mais a situação de abandono dos já dois terços da área ocupada por esta espécie exótica em Portugal.

No que respeita ao impacto dos incêndios, o artigo da autoria de Paulo Fernandes e Nuno Guiomar quebrou expectativas. Na sequência da questão colocada por João Camargo e por mim no livro “Portugal em Chamas – Como Resgatar as Florestas”, e cito: “Há um novo regime de fogo em Portugal?; a resposta foi, volto a citar: “Temos muitas indicações que permitem afirmar que sim“. O que nos dizem agora Paulo Fernandes e Nuno Guiomar, de acordo com os dados e a metodologia que elegeram, é que não houve no passado tais indícios mais que, face aos mega-incêndios, os pode haver no futuro. Ficamos assim no campo do cinzento, com risco futuro de se tornar preto de cinza. Nada de relevante se constatou neste artigo, portanto, quanto ao futuro.

Ainda no que respeita à abordagem do tema pelo lado dos incêndios, teria sido com certeza muito enriquecedor a inclusão de uma análise por parte do coordenador do Observatório Técnico Independente, criado pelo Parlamento neste domínio.

Em conclusão, esperava uma abordagem mais equidistante a esta temática por parte do organismo da Administração Pública responsável pela edição desta revista. Mais ainda, face às atribuições que tem no domínio do planeamento e das políticas agrárias.


Paulo Pimenta de Castro
Engenheiro Silvicultor
Presidente da Direcção da ACRÉSCIMO - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Dos autos de fé

João M. A. Soares publicou um artigo de opinião, no Jornal I, no passado dia 23 de Outubro, com o título “O Presidente, os eucaliptos e o regresso aos autos de fé”.

Vou tentar não ser muito sarcástico, independentemente de constarem no artigo “factos” não verdadeiros ou muito discutíveis.

Tanto quanto julgo saber, um auto de fé corresponde a uma daquelas encenações macabras da Inquisição, em que se trajavam os ditos hereges com uma túnica de peregrino e os encaminhavam em procissão para a fogueira. Hoje em dia é algo semelhante com o que se passa com os “palitos”, no caso despidos de casca, que são encaminhados para cozedura. Estranho que quem recorra a imagem do auto de fé seja quem esteve ligado ao envio de “palitos” para cozedura. Isto está relacionado com política florestal em Portugal? Aparentemente não, mas só aparentemente!

Há quem se sinta acossado pelos acontecimentos, depois de uma explosiva germinação de milhões de sementes de eucalipto pela área ardida em 2017. Os agora acossados são aqueles que durante as últimas décadas têm condicionado as decisões políticas em matéria de política florestal em Portugal a seu favor. Respondem agora, não ao problema, mas sobre os ambientalistas. Ainda não entenderam o problema! De facto, os ambientalistas há muito chamam a atenção para os problemas que têm vindo a ser criados pela expansão epidémica do eucalipto pelo território nacional. Entre outros, também para os mais de 600 mil hectares em gestão de abandono, produtividades miseráveis de 6 metros cúbicos hectare ano como média nacional, mais de 122 mil hectares ardidos só em 2017. Não entenderam que, a acção do Presidente da República no arranque de plantas de eucalipto dificilmente se enquadraria numa acção de grupos ambientalistas. É bem mais provável que responda às preocupações dos Autarcas e estes às preocupações legitimamente manifestadas pelas suas Populações. Ou, será que agora os acossados agrupam todos no rol de ambientalistas? Haja decoro!

Se há espaço para a produção de rolaria de eucalipto para a produção de pasta celulósica em Portugal? Há! Mas, será conveniente voltar as necessidades manifestadas pela indústria papeleira em tempos de, ainda, alguma responsabilidade social, aos 300 mil hectares de ocupação territorial. Portugal não tem estrutura fundiária, populacional e financeira para suportar monoculturas. A de eucalipto, que ocupa cerca de 10% do território do país, acabou numa gigantesca epidemia, a qual terá de ser alvo de um resgate bem próximo. Mais um! Desta vez não será a um banco, mas o volume financeiro do peso sobre os contribuintes não ficará atrás.




Paulo Pimenta de Castro
Presidente da Direcção da Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Carta aberta a quem se sentir responsável pelo futuro do Pinhal do Rei – Pinhal de Leiria


Todos os dias são dias para ajudar a resolver os graves problemas que se estão a avolumar nesta reserva ecológica que, por incúria dos homens que dela se deveriam responsabilizar, continua a ser “comandada” pelos desígnios da natureza, sem qualquer retoque ordenador da mão sabedora de quaisquer responsáveis pagos pelo esforço social dos nossos impostos!

Todos os dias são dias para que, a capacidade crítica daqueles que entregaram parte substancial das suas vidas em defesa desta emocionante causa da protecção do ambiente e, logicamente, da natureza, ao colocarem, quantas vezes em causa o seu prestígio, imagem, futuro, estabilidade familiar e outras vertentes que fazem parte do ser-se integro e voluntarioso com trabalho protector daquilo que outros exploram ignobilmente.

Todos os dias são dias para sofrer derrotas e desilusões, sempre arquitectadas por aqueles que não pensam do mesmo modo, que se apaixonaram em primeiro lugar pelos vaidosos interesses materiais da vida!

Todos os dias são dias...

A 8 de Agosto foi mais um dia especial para uma interacção harmoniosa num encontro de vontades conducentes à intransigente defesa que se deve prosseguir em
favor da regeneração do Pinhal do Rei ou seja, da Mata Nacional de Leiria.

Pessoalmente não sei dizer quantas visitas guiadas já organizei no vasto território deste malogrado Pinhal. Ontem foi a última, não no sentido restrito da palavra, mas no sentido temporal.

Foi com prazer que recebi Domingos Patacho, da Quercus, e Paulo Pimenta de Castro, da Acréscimo.

Para o maior “cemitério florestal” do país se combinou a visita, com um programa muito pesado para a temperatura que se sentia. Porém, os trabalhos previstos não conseguiram ultrapassar o número um do programa! Tratava-se e tomar conhecimento dos efeitos directos da ineficácia que se “adoptou” perante o que seria necessário como controlo da proliferação de determinadas infestantes na zona compreendida entre a ponte do Ribeiro de Moel e o prolongamento desse mesmo Ribeiro até ao começo da zona não ardida.

Senhores do Governo, dessa vertente florestal desde o senhor Ministro das Finanças, senhor Primeiro-Ministro, senhor Ministro da Agricultura e Florestas, senhor Secretário de Estado das Florestas:
  • Receber as receitas provenientes da venda de madeiras do PL sem que se faça qualquer cabimentação a favor da regeneração da zona ardida é uma péssima opção;
  • Permitir que o comando financeiro pertença, neste caso especial a alguém que nada tem a ver com as florestas mas sim com o próprio equilíbrio orçamental do Estado, não é mais do que uma oportunidade de acrescentar, por enquanto, mais de 12 milhões que aparecem de forma inesperada para minorar outros erros! 

O Senhor Primeiro-Ministro, tem obrigação intelectual de fazer um pouco mais e pensar que a Mata Nacional de Leiria pode voltar a ser um exemplo de incompetência política ou de capacidade corajosa de empreendimento ambiental do Estado!! Das duas uma!

A parte ministerial desta vertente do ordenamento e regeneração das florestas públicas portuguesas, tem-se comportado ultimamente, pelo caminho adoptivo do “assobiar para o lado” na expectativa ou esperança inócua do esquecimento popular do calamitoso resultado das florestas portuguesas durante o terrível ano de 2017, por exclusiva incúria do poder político português. É bom que V. Ex.ª. senhor Ministro, retome a assumpção das suas responsabilidades nestas matérias e retome o necessário caminho da recuperação florestal que se exige.

Senhor Secretário de Estado das Florestas, Miguel de Freitas: É a única pessoa que aqui cito pelo seu nome. Primeiro porque tenho por si a consideração que me parece merecer pela sua dedicação e trabalho intenso a favor desta causa de recuperação imediata do Pinhal de Leiria, que defendo. Não se trata de uma reivindicação! Sim de uma questão de lógica.

A primeira de uma série de visitas que os técnicos que no início deste texto assinalo, ofereceu a oportunidade de mostrar a quem conhece o tema, como se está a tornar irreversível a possibilidade de recuperação adequada de algumas zonas da Mata Nacional de Leiria.

Temos em programação outras visitas mais alargadas a algumas personalidades da silvicultura portuguesa, para que se possa, no local próprio, denunciar tudo aquilo que não está a ser feito de modo a garantir tamanho descalabro!

Ora vejamos:
  1. Na zona limítrofe da Ponte do Ribeiro de Moel, a primeira intervenção que julgo ter sido realizada pelo ICNF, consistiu no derrube de todos (menos um) os centenários eucaliptos que caracterizavam o local! Os senhores do ICNF ao derrubarem estas gigantescas árvores, motivaram a projecção de milhares (muitos milhares) de sementes em redor das árvores derrubadas.
  2. As copas destas gigantescas árvores foram colocadas em improvisado estaleiro no lado oposto da estrada que divide o espaço.
  3. Como resultado estas copas largaram no terreno o que restava das sementes dos eucaliptos.
  4. O que aconteceu? No espaço circundante – mais de 200 metros de diâmetro – prolifera uma vasta floresta de eucaliptos, muitos milhares, alguns dos quais já com mais de 2 metros de altura!
  5. Ainda perto deste local, não se cuidou de eliminar meia dúzia de rubínias que ali existiam e hoje, para espanto de alguns, prolifera verdejante uma enorme floresta desta espécie invasora.

Mas, regressando à Ponte do Ribeiro de Moel, para voltar à direita ao longo desse ribeiro, vamos deparar com milhares de árvores destas duas espécies invasoras denunciadas e, segundo a opinião dos silvicultores que me acompanharam nesta limitada e demorada visita, estão a tomar forma incontrolável.

Populares (?) resolveram plantar choupos em diversos locais. Porém o que fizeram foi construir focos de destruição da estrutura viária, porque plantaram esses choupos, rigorosamente encostados ao piso asfaltado de que resultará a destruição do pouco que resta utilizável daquele equipamento! Boa vontade, mau serviço!

A tentativa mediática de construir equipamentos de retenção de areias na zona da Ponte do Ribeiro de Moel, tem os resultados bem visíveis. Inacabada a obra, faltou a aplicação de mato verde na parte superior das paliçadas para permitir a eficaz funcionamento do projecto, e tem hoje um aspecto de precoces estragos.

Assim se desconstrói o futuro da Mata Nacional de Leiria.

Voltaremos!




por Gabriel Ramos Roldão